MÉTODOS DE ESTUDOS BÍBLICOS
- INTRODUÇÃO
A
Reforma Protestante trouxe uma grande conquista para a Igreja de Cristo. Lutero
considerava que a distância entre o povo de Deus e Sua Palavra levaria a Igreja
à corrupção; assim, se propôs ao estudo dos idiomas originais e ao ensino da
Bíblia como única autoridade e regra de fé para a Igreja, “Sola Scriptura”. Aos
31 de outubro de 1517, as 95 teses luteranas foram fixadas na Igreja do castelo
de Wittenberg.
Antes
da Reforma, a leitura da Bíblia estava reservada aos conhecedores dos idiomas
originais e do latim; Lutero inicia um sistema de educação para que o povo
pudesse aprender a leitura bíblica em alemão, de modo que a Bíblia passa ser
acessível a todos. Assim, a Bíblia passa a ter o devido reconhecimento como
verdadeira Palavra de Deus.
Ao
aproximar-se da Bíblia, o cristão deve ter a consciência de que não se trata
simplesmente de mais um livro. Embora seja um material compilado por seres
humanos e que deve ser estudado segundo regras comuns de interpretação textual,
a verdadeira Palavra de Deus está revelada na Bíblia Sagrada, segundo a
inspiração divina sobre os escritores do Antigo e do Novo Testamentos.
1.1. O
ESTUDO PESSOAL DA BÍBLIA
Além
da postura necessária para estudar o Texto Sagrado, o cristão deve se aproximar
da Bíblia buscando mais do que acúmulo de conhecimento. Deve buscar na Bíblia,
em primazia, a salvação (Jo 5.24, 39, 6.68; Ef 1.13; 2Tm 3.15; Tg 1.21); a
direção para os seus caminhos (Sl 119.105); fé (Rm 10.17); a esperança (Rm
15.4; 2Pe 1.19); a alegria (Sl 19.8; Jr 15.16); a paz (Sl 119.65); o sustento
(Dt 8.3; Mt 4.4; 1Tm 4.6); o crescimento (1Pe 2.2); a pureza (Sl 119.9; Jo
15.3; Ef 5.26; 1Pe 1.22); a santidade (Jo 17.17; Ef 5.26); a maturidade (Hb
5.12-14); a sabedoria (Sl 119.98-100; 2Tm 3.15); as defesas espirituais (Mt
4.1-11; Ef 6.17); a eficácia espiritual (2Tm 3.16-17); a introvisão (Hb 4.12;
Tg 1.22-25); a cosmovisão (Rm 16.25-27) e a bem-aventurança (Sl 119.1; Lc
11.27-28; Ap 1.3).
O
estudo pessoal da Bíblia capacita o cristão a pensar por si mesmo a respeito de
sua fé e das doutrinas bíblicas, de modo a experimentar a alegria da descoberta
pessoal. Também capacita o estudante a avaliar palestras, preleções e materiais
de estudo de maneira crítica, auxiliando os demais na compreensão e aplicação
da Palavra de Deus. Estudar a Bíblia devocionalmente leva o cristão a conhecer
melhor e desenvolver um relacionamento mais íntimo com Deus, que se revela em
Sua Palavra. Isso é crescimento espiritual.
Além
disso, o estudo pessoal prepara o estudante para manejar bem a Palavra da
verdade (2Tm 2.15), evitando erros quanto ao contexto e aplicação de textos
bíblicos (2Pe 1.20; 1Co 2.13).
1.2. A
BÍBLIA COMO REVELAÇÃO DE DEUS
Uma vez que a Bíblia se apresenta como a verdade revelada de Deus, deve ser
compreendida como obra sobrenatural deste.
1.2.1. Inspiração
Para
que a Bíblia chegasse aos dias atuais na forma como está, Deus se valeu de
autores humanos, que foram inspirados por Ele para a compilação dessa obra (1Ts
2.13). Inspirado significa soprado, exalado por Deus, ou seja, embora
escrevendo segundo seu próprio ponto de vista (Js 10.13), produziram obras
segundo a vontade de Deus.
1.2.2. Iluminação
Ao
passo que a inspiração foi a obra mediante a qual Deus usou homens para a
produção literária de sua revelação, a iluminação é o ministério do Espírito
Santo, que esclarece as verdades reveladas na Bíblia para seus leitores (Jo 16.
12-15). É importante que o estudante sincero peça que o Espírito de Deus
sonde seu coração (Sl 139.23,24), confessando seus erros (Sl 32.5;
51.2,7,10,17; 66,18; 1Jo 1.9), segundo o Espírito Santo ensina mediante a
Palavra de Deus e, assim, pedir um coração receptivo, sedento e obediente (Sl
42.1,2; Pv 23.12; Hb 10.22).
2. PRINCÍPIOS
BÁSICOS PARA O ESTUDO BÍBLICO
2.1. LEITURA
Uma
vez que a revelação de Deus foi registrada através da escrita, é imprescindível
que o cristão se dedique em aprimorar sua capacidade e seus hábitos de leitura.
É preciso ler bastante, além de ser necessário que se desenvolva gosto pela
leitura, de modo que deixe de ser uma obrigação e passe a proporcionar prazer
para o leitor.
O
temor do Senhor e a oração devem preceder, acompanhar e suceder a leitura da
Bíblia. O ambiente acadêmico não pode levar o estudante a conceber a Escritura
e a espiritualidade de seu conteúdo como mero material de pesquisa.
Estudar
exige atenção, interesse e entrega ao texto em questão. É importante ler
repetidamente e, se possível em mais de uma tradução. Bíblias de estudo podem
ser muito úteis, mas possuir várias versões e diferentes traduções é ainda mais
importante para desenvolver a compreensão do texto por si só.
Ter
paciência para a leitura e saber exatamente a que o texto está se referindo é
indispensável, além da meditação sobre o assunto, extraindo aprendizado e
compreendendo plenamente o objetivo da passagem, descobrindo, assim,
informações no texto que sejam úteis para a vida prática.
Sublinhar
ou destacar textos, utilizar as margens para fazer anotações são hábitos que
ajudam muito o estudante.
2.2. MEMORIZAÇÃO
Quanto
à memorização, o treino é o melhor caminho, pois cada pessoa tem uma forma
específica para conseguir decorar; algumas têm facilidade para lembrar o que
ouvem, de modo que, lendo em voz alta, obterão melhores resultados; outras
pessoas lembram melhor o que vêem, assim, marcar a Bíblia pode ajudar; os
sensitivos, por sua vez, podem optar por transcrever os textos.
Diferente
do processo de estudo para a interpretação, onde uma variedade de versões é
significativamente melhor, no processo de memorização o estudante deve optar
por uma única versão.
2.3. MATERIAIS
DE APOIO
A
Bíblia é a única fonte de material de estudo inspirada por Deus; contudo, é
importante fazer uso do que outros cristãos deixaram como registro de suas
pesquisas. Muitas informações contidas no Texto Sagrado serão mais bem
elucidadas por pessoas que tenham conhecimento técnico em determinadas áreas do
conhecimento (geografia, história, literatura, etc.). Porém, o cristão deve ter
no texto a primazia de suas pesquisas para não se tornar mero reprodutor de
opiniões alheias.
A
escolha de local e momento adequados, livres de interrupções, é importante para
o melhor rendimento dos estudos; além disso, o estudante da Bíblia deve
munir-se do material adequado:
·
Análise e opiniões de estudiosos e
pesquisadores do assunto.Comentários
Bíblicos:
·
Dicionário
da língua portuguesa: Para esclarecer o sentido das
palavras antes de tentar a interpretação.
·
Dicionários
bíblicos: Importantes para compreender o
significado das palavras no contexto em que aparecem no Texto sagrado.
·
Concordância
bíblica: Com esse material, é possível,
através de palavras-chave, encontrar a localização de textos na Bíblia.
·
Atlas
bíblicos: Trazem mapas das regiões
bíblicas com informações como divisão política, física, relevo, distâncias,
entre outras de grande relevância, como as peregrinações dos patriarcas ou as
viagens dos apóstolos.
·
Livros
no contexto cultural: Como, por exemplo, de história
secular, para a verificação e sincronização dos fatos da história bíblica com
outras nações no mesmo período. Além de materiais das diversas áreas do
conhecimento.
·
Bíblias
de estudo: São bíblias que trazem auxílios
para o leitor no rodapé do texto bíblico ou em espaços separados, facilitando o
estudo e a compreensão.
Outros
materiais importantes: Softwares de Bíblia; Enciclopédias; Diversas versões da
Escritura; Caderno para anotações; Computador.
3. ETAPAS
DO ESTUDO BÍBLICO
Independente
do método ou do propósito do estudo bíblico (seja uma leitura corriqueira, a
preparação de um sermão ou mesmo uma pesquisa de nível acadêmico), existem três
etapas fundamentais para a compreensão e estudo de qualquer passagem bíblica:
·
Observação: “O que diz o texto?”
·
Interpretação: “O que significa o que
diz o texto?”
·
Aplicação: “Como usar o que o texto
diz na vida cotidiana?”
3.1. OBSERVAÇÃO
Por
vezes, ao estudar determinada passagem bíblica, o estudante não consegue
extrair todo o conteúdo que esta contém, de maneira a pensar que aquele texto
não contém tantas informações relevantes. Porém, ao ler um comentário ou ouvir
uma preleção feitos por outra pessoa, fica impressionado com o conteúdo que o
autor ou preletor consegue obter através de um bom estudo.
Esta
primeira etapa do estudo bíblico é a observação, na qual o pesquisador se
dedica a trazer à tona todo o conteúdo e a riqueza dos detalhes da passagem que
deseja estudar, a fim de extrair subsídios para as demais etapas do estudo.
3.1.1. O
tema do estudo
Em
primeiro lugar, o estudante deve estar interessado na pesquisa que irá
realizar, caso contrário, desistirá ou realizará um trabalho superficial. O
interesse pelo estudo de determinada passagem surge, muitas vezes, de uma
leitura descomprometida que o cristão faz por prazer, a fim de simplesmente
meditar em um trecho bíblico; disso surgem curiosidades e o desejo de
compreender melhor a amplitude da revelação de Deus naquela passagem. Outras
vezes, um tema que gera polêmica ou dúvidas ao cristão e aos seus irmãos o
incentivam a pesquisar com interesse o assunto. De uma ou de outra forma, a
pesquisa será mais bem sucedida se partir de um interesse pessoal, de um desejo
sincero pelo assunto.
3.1.2. A
leitura do texto
Esforço
e perseverança são fundamentais para que todos os pormenores sejam extraídos do
texto, fazendo o registro por escrito de cada detalhe observado de modo sistêmico
e de fácil consulta, para possibilitar a posterior organização das informações.
É
necessária atenção completa a cada detalhe, sem perder a visão holística,
dedicando concentração e tempo. Ler a passagem cuidadosamente e repetidamente,
meditando em cada palavra e visualizando mentalmente o que o texto diz com
bastante paciência.
3.1.3. Análise
do texto
·
Identificação e anotação de quem são
os personagens envolvidos no contexto, como falante, ouvinte, escritor,
destinatários.Quem?
·
O
que? O contexto em que a cena se
desenvolve, o que está acontecendo e o que os personagens estão dizendo.
·
Onde? O lugar onde a cena acontece ou onde o autor de
determinada epístola ou livro se encontra no momento da composição, o lugar
onde estão os destinatários.
·
Quando? O momento em que a cena acontece e a
relevância disso dentro do contexto histórico.
·
Por
quê? Fatos que motivaram o acontecimento
ou a composição da obra por parte de seu autor ou do personagem central.
·
Como? As maneiras como os acontecimentos se desenrolaram.
3.1.4. Estrutura
literária do texto
Passo
indispensável para uma observação completa é determinar a estrutura literária
do texto, pois a forma de interpretar será definida por essa estrutura:
Narrativa (Gn 6); Didática (Mt 5); Admoestação (Gl 1.6-12); Poesia (Salmos,
Cântico dos Cânticos); Parábolas (Mt 13.3-19); Profecia (Isaías, Jeremias,
Ezequiel); História (Josué); Sabedoria (Provérbios, Eclesiastes); Epistolas;
Escatologia (Apocalipse). Perceba-se que um livro ou passagem pode estar
inserido em mais de um gênero literário ao mesmo tempo.
3.1.5. Palavras-chave
Palavras
cuja definição determina o significado de pontos cruciais da passagem como um
todo. Por exemplo, a palavra aliança (gr: diatheke) que aparece em Hb 12.24
significa “um contrato celebrado entre duas pessoas onde o contratante
estabelece as cláusulas e condições a serem aceitas pelo contratado”. Jesus é o
mediador desta nova aliança estabelecida entre Deus e homens. A partir do
momento em que tal aliança é feita por iniciativa de Deus, as bênçãos
relacionadas a ela serão desfrutadas por todos quantos fizerem parte desta
aliança.
Por
fim, é necessário fazer um apanhado geral das anotações e observações para que
os detalhes não se percam.
3.2. INTERPRETAÇÃO
Uma
vez feita a observação, é necessário interpretar os textos em análise. Para não
cometer distorções e evitar possíveis erros, é necessária a observação das
regras hermenêuticas, ou seja, as regras de interpretação do texto bíblico.
A
hermenêutica é a ciência, arte e técnica de interpretar corretamente a Palavra
de Deus. A regra fundamental da hermenêutica bíblica é:
A
Escritura Sagrada interpreta a si mesma.
O
primeiro a transgredir a regra mais básica da interpretação bíblica foi
Satanás, distorcendo o significado das palavras de Deus, omitindo parte do
conteúdo e citando apenas o que lhe convinha:
“Ora,
a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus
tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de
toda árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do
jardim comeremos, mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse
Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. Então, a
serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia
em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o
bem e o mal”. Gn 3.1-5
Ao
se deparar com interpretações diferentes ou contraditórias, o intérprete deve
buscar o texto na Bíblia, tendo a regra fundamental como norte para sua
averiguação da veracidade do significado do texto. Pedro ensina que nenhuma
escritura é de particular interpretação (2Pe 1.20), ou seja, a Bíblia
interpreta a própria Bíblia. Partindo desta regra, há cinco regras básicas e
indispensáveis para a interpretação de todo e qualquer texto bíblico:
3.2.1. Primeira
Regra da Hermenêutica
Enquanto
for possível, é necessário tomar as palavras no seu sentido usual e ordinário.
Os
escritores bíblicos escreveram com o propósito de deixar uma mensagem clara ao
povo de Deus e ao mundo, usando palavras conhecidas pelo povo em geral da época
em que o texto foi escrito. Assim, devem-se interpretar as palavras no sentido
simples do que elas significam e do que elas significavam para os seus
destinatários originais.
Exemplo:
“Deste-lhe
domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e
bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes
do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares”. Sl 8.6-8.
No
texto acima, as ovelhas seriam os crentes em Cristo e os peixes os homens que
precisam de evangelização? Esse é um tipo de erro comum que pode ser evitado se
a primeira regra for respeitada: Ovelhas são ovelhas e peixes são peixes,
simplesmente.
Exemplo:
“Se
o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti;
pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo
lançado no inferno”. Mt 5.29
É
óbvio que Jesus não está sugerindo a automutilação, mas usando um modo próprio
de expressão do idioma original, enaltecendo a vantagem de sacrificar algo
valioso com o objetivo de obedecer à vontade de Deus – ainda mais valiosa.
3.2.2. Segunda
Regra da Hermenêutica
É
absolutamente necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da
frase.
É
preciso questionar o pensamento do autor para determinar o sentido correto que
a palavra assume dentro de uma frase, pois, tanto na Bíblia quanto em qualquer
outra literatura, o sentido das palavras muda de acordo com a frase em que
estão inseridas.
Por
exemplo, o significado assumido pela palavra sangue nos diversos textos
bíblicos:
·
Sangue = percepção humana:
Mt
16.17: “Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não
foi carne e sangueque to revelaram, mas meu Pai, que está nos
céus”.
·
Sangue = pessoa:
Mt
27.4: “Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém,
responderam: Que nos importa? Isso é contigo”.
·
Sangue = assassinato:
Mt
27.6: “E os principais sacerdotes, tomando as moedas, disseram: Não é lícito
deitá-las no cofre das ofertas, porque é preço de sangue”.
·
Sangue = culpa:
Mt
27.25: “E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e
sobre nossos filhos!”.
·
Sangue = sangue:
Jo
19.34: “Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e logo saiu sangue e
água”.
3.2.3. Terceira
Regra da Hermenêutica
É
necessário tomar as palavras no sentido que indica o contexto, isto é, os
versos que precedem e seguem o texto que se estuda.
Quando
a frase ou versículo não são suficientes para definir o significado do termo,
deve-se recorrer aos versículos que antecedem ou sucedem o trecho bíblico.
Exemplo:
Ef
3.4: “...pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento
do mistério de Cristo”.
Com
base no trecho sublinhado, é possível admitir que Paulo soubesse coisas a
respeito de Cristo que não registrou na Bíblia? Poderia o pregador deste texto
incentivar os ouvintes a orarem em busca da revelação deste mistério? A análise
dos versículos que antecedem e sucedem este trecho revela que não:
“Por
esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios,
se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim
confiada para vós outros; pois, segundo uma revelação, me foi dado
conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que,
quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo, o
qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como,
agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a
saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e
co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” Ef 3.1-6.
O
texto na íntegra revela que o mistério nada mais é do que a participação dos
gentios na Nova Aliança em contraste com a Antiga.
Exemplo
Pv
8.17: “Eu amo os que me amam; os que de madrugada me procuram me acham”.
.
Com
base neste texto, é possível afirmar que Deus não ama os pecadores? E quanto a
dizer que Deus amou o mundo (Jo 3.16)? Ou o texto que diz que Deus é amor (1Jo
4.8)? Será que há limites para o amor de Deus? É verdade que Deus prefere as
orações feitas de madrugada a outras em qualquer outro horário? Veja-se o
contexto:
“Eu,
a Sabedoria, habito com a prudência e disponho de conhecimentos e de conselhos.
O temor do SENHOR consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau
caminho e a boca perversa, eu os aborreço. Meu é o conselho e a
verdadeira sabedoria, eu sou o Entendimento, minha é a fortaleza. Por meu
intermédio, reinam os reis, e os príncipes decretam justiça. Por meu
intermédio, governam os príncipes, os nobres e todos os juízes da terra. Eu amo
os que me amam; os que de madrugada me procuram me acham. Riquezas e honra
estão comigo, bens duráveis e justiça”. Pv 8.12-18.
O
contexto revela que o texto se refere à sabedoria, que só ama os que a amam e
só é achada por aqueles que passam as madrugadas estudando e meditando para
adquiri-la. Deus ama a todos e ouve as orações realizadas em qualquer hora e
lugar.
A
regra do contexto não se limita aos versículos ou mesmo ao capítulo que está
sendo analisado, pois este pode não ser suficiente para esclarecer o seu
sentido. Assim, a regra do contexto é gradativa: Palavra – Frase – Capítulo –
Livro – Bíblia.
3.2.4. Quarta
Regra da Hermenêutica
É
preciso tomar em consideração o desígnio ou objetivo do livro ou passagem em
que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.
Para
compreender o desígnio ou objetivo do livro, é necessário estudá-lo e
analisá-lo exaustiva e minuciosamente, considerando a época e o contexto de sua
escrita. Algumas vezes o objetivo do livro está expresso em seu próprio texto:
Pv 1.1-4; Jo 20.31; 2Pe 3.2. Determinar o objetivo do livro elimina aparentes
contradições e facilita o exegeta a pensar como o escritor, olhando na mesma
direção, facilitando a interpretação.
Por
que João parece tão diferente de Lucas ao contar a mesma história? Porque o
objetivo de João não era fazer uma acurada investigação dos fatos como Lucas
(Lc 1.1-4) para possível comprovação histórica, mas mostrar para os crentes a
verdadeira identidade do Senhor Jesus (Jo 20.31) e tudo o que ele escreve visa
o cumprimento deste objetivo. Assim, ao ler Lucas, o intérprete terá em mente
sua dedicação por detalhar fatos para alguém que, provavelmente, não conhecia a
história de Jesus; mas ao ler João, pensará em um livro que visa mostrar a
verdadeira personalidade do Cristo e causar um efeito vivificador nos leitores
cristãos.
3.2.5. Quinta
Regra da Hermenêutica
É
indispensável consultar as passagens paralelas explicando as coisas espirituais
pelas espirituais.
O
intérprete deve consultar as passagens bíblicas que fazem referência umas às
outras, possuem alguma ligação entre si ou tratam do mesmo assunto. Há três
classes de paralelos:
Paralelos
de palavras
Quando
é feita uma busca de determinada palavra em outros textos para explicar seu
significado no texto estudado.
Atos
13.22: “E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando
testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu
coração, que fará toda a minha vontade”.
Com
base neste texto, é possível admitir que Deus aprovou todos os atos de Davi? E
quanto ao adultério, à poligamia, ao homicídio e outros erros que Davi cometeu?
Para solucionar esta dificuldade de interpretação é necessário fazer uma
consulta a outros textos bíblicos que falem a respeito de Davi.
1Sm
2.35: “Então, suscitarei para mim um sacerdote fiel, que procederá
segundo o que tenho no coração e na mente; edificar-lhe-ei uma casa estável, e
andará ele diante do meu ungido para sempre”.
Este
texto mostra que Davi foi um homem segundo o coração de Deus em sua missão de
rei-sacerdote, a qual cumpriu muito bem. O texto de 1Samuel 13.14 confirma esta
verdade.
Paralelos
de idéias
Mt
16.18: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei
a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
Com
base neste texto, é possível admitir que o apóstolo Pedro é a pedra sobre a
qual a igreja está edificada? Não seria muito perigoso que Jesus tivesse
estruturado sua igreja sobre um homem, ainda que de Deus, limitado e sujeito a
errar? Uma análise a respeito dessa idéia - a pedra fundamental - esclarece a
questão.
Em
Mateus 21.42, Jesus é a pedra angular. Em Efésios 2.20,21, Jesus é a Pedra
sobre a qual os apóstolos, dos quais Pedro era um, trabalharam na edificação da
igreja. Paulo afirma em 1Co 3.10,11 que Jesus é o único fundamento e que outro
não pode ser posto. Por fim, o próprio Pedro diz em sua carta que Cristo é a
Pedra.
1Pe
2.4-8: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada,
sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como
pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo,
a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio
de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular,
eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. Para
vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes,
A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a
principal pedra, angular e: Pedra de tropeço e
rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes,
para o que também foram postos”.
Logo,
a obscuridade e dificuldade de interpretação de um único texto isolado – Mateus
16.18 – são esclarecidas por inúmeros textos bíblicos que apontam Jesus como “a
única Pedra angular”.
Paralelos
de ensinos gerais
Algumas
questões de difícil interpretação devem ser analisadas de acordo com os ensinos
gerais da Bíblia. Por exemplo, Deus é descrito como Onisciente, Onipotente,
Transcendente, Espírito Perfeito, mas há textos que descrevem Deus com
características de homem, limitando-o a tempo, lugar, espaço, etc. Para
compreender este tipo de aparente contradição, levam-se em consideração os
ensinos gerais da Bíblia que, apesar de ser uma obra inspirada por Deus, foi
escrita para seres humanos, e revela Deus de modo que os seres humanos o possam
compreender. A esse fenômeno, a teologia chama antropomorfismo – Deus se revela
com aparência de homem e antropopatia – Deus se revela com sentimentos de
homem. Assim, quando há referência a Deus de maneira limitada, não se deve esquecer
que faz parte daquela passagem isolada, sendo o ensino geral o que deve
prevalecer para formulação de conceitos teológicos.
3.3. APLICAÇÃO
“A Bíblia
não foi dada para aumentar o nosso conhecimento, mas para mudar a nossa vida”. D.
L. Moody,
A
Bíblia Sagrada não é um livro de caráter informativo, mas útil para transformar
a vida do ser humano (Dt 32.46-47; Tg 1.22). Assim, ela deve servir para guiar
a vida dos cristãos em todos os momentos da vida cotidiana. O uso das
observações devidamente interpretadas na vida diária é a aplicação da Palavra
de Deus. Para tanto, é necessário investigar o texto de forma prática,
procurando um exemplo a ser seguido, um pecado a ser evitado, um modelo de
oração, uma condição estabelecida por Deus, algum princípio a ser assimilado,
etc. Para isso é preciso ser específico, relacionando o texto com situações
reais da vida, sem generalizações, estabelecendo atitudes e um comportamento
que condiga com o texto aplicado.
A
questão cultural deve ser observada. Há distinção entre os elementos teológicos
(imutáveis) e os elementos culturais (mutáveis) de um determinado preceito. A
hermenêutica é a ferramenta para fazer tal distinção.
Uma
auto-avaliação periódica é vital, pois o estudante de teologia, que será (ou já
é) um professor entre os irmãos, deve ser um referencial, não apenas no
conhecimento, mas no procedimento. Assim, é importante avaliar, à luz da
Bíblia, o comportamento pessoal.
3.3.1. Passos
para a Aplicação
·
Conhecimento
Para
um conhecimento pleno do texto são necessárias observação e interpretação
exaustivas. Existe uma única interpretação, mas são possíveis várias
aplicações, o que torna o texto útil para todos os tempos. Além disso, é
importante conhecimento da realidade que envolve a vida do ser humano em geral
e da comunidade da qual o estudante faz parte, para que sua aplicação tenha um
foco real.
·
Relacionamento
A
partir conhecimento do texto e da realidade presente, a Palavra de Deus deve
ser direcionada para a experiência pessoal (a Palavra é direcionada para a
realidade humana, nunca o contrário). Essa relação torna a teoria do estudo em
prática de vida cristã.
·
Meditação
Meditar
não é mero exercício mental ou uma tentativa de entrar em contato com algum
“eu” superior em busca de desenvolvimento espiritual, como dizem algumas seitas
orientais; é ponderar acerca das verdades reveladas na Bíblia, com o objetivo
de que esta auxilie na renovação de uma mentalidade que esteja de acordo com a
vontade do Senhor (Rm 12.1,2).
·
Pratica
O
propósito último de todo estudo bíblico é cumprir a vontade de Deus segundo
revelado em Sua Palavra. Assim, o estudante deve ter a preocupação de avaliar e
submeter sua vida a essa vontade.
4. MÉTODOS
DE PESQUISA
No
que se refere ao raciocínio, serão analisadas as justificações epistemológicas,
ou seja, a apresentação de um argumento em que um conjunto de sentenças com
relação lógica serve de razão para a aceitação de uma conclusão.
Para
tanto, existem duas formas estruturais que diferem em importância na
constituição das ciências. Estas são a dedução e a indução.
4.1. DEDUÇÃO
O
método dedutivo procura transformar enunciados complexos, universais em
particulares, de maneira que a conclusão resulte de uma ou várias premissas,
fundamentando-se no raciocínio dedutivo.
Este
método propõe solucionar problemas justificando o contexto da descoberta
através da própria razão, sendo este método o símbolo do racionalismo moderno.
Ao
ser identificado o problema, o pesquisador começa a conjecturar sobre possíveis
soluções que poderiam explicá-lo; assim, trabalha a dedução sobre o problema
geral para chegar às questões mais particulares. Exemplos:
·
Premissa 01: “Todos os homens são
pecadores”.
·
Premissa 02: “João é homem”.
·
Logo: “João é pecador”.
Porém,
se existe um erro em uma das premissas, a conclusão será equivocada:
·
Premissa 01: “Todos os homens são
pecadores” (Informação correta).
·
Premissa 02: “Jesus Cristo é homem”
(informação incompleta).
·
Logo: “Jesus Cristo é pecador”
(conclusão equivocada).
4.1.1. Etapas
do método de raciocínio dedutivo:
·
Evidência
O
problema ou fato em análise deve ser observado da forma como se apresenta, sem
prevenções, preconceitos ou precipitações.
·
Análise
O
problema deve ser fracionado em várias partes para que cada parte seja
analisada separadamente, detalhando melhor a pesquisa.
·
Síntese
Os
problemas definidos ao fracionar, devem ser agrupados em graus, ou seja,
comparação de problemas simples com outros também simples e problemas complexos
com outros também complexos.
·
Enumeração
Seleção
de parâmetros e dados que sejam necessariamente pertinentes à solução do
problema.
A
observação destas etapas diminui o risco da formulação de uma ou mais premissas
equivocadas, maximizando a possibilidade de uma conclusão verdadeira.
4.2. INDUÇÃO
Na
indução, a relação entre as premissas não é implicação (como na dedução), mas
de probabilidade, ou seja, uma conclusão pode ser mais ou menos provável em
relação às premissas que a sustentam. O método indutivo baseia-se no princípio
da formulação de uma lei geral a partir de observações de alguns casos
particulares. Observe-se o exemplo anterior: “Todos os homens são pecadores” é
uma premissa para uma conclusão dedutiva, mas o que dá a certeza dessa
premissa? A resposta para essa pergunta será encontrada em uma argumentação
indutiva que toma como base as afirmações da Bíblia Sagrada. Da mesma forma, a
premissa “Jesus é homem” é incompleta em si mesma se não for exposta a um
raciocínio indutivo, pois, de fato, Jesus foi homem e de fato todos os homens
são pecadores. Se não houver uma argumentação indutiva para a formulação
hipotética dessas premissas, a conclusão será absurda: Jesus é pecador.
Um
exemplo para diferenciar os dois métodos:
·
Dedução: Todos os homens são
pecadores; João é homem, logo, João é pecador.
·
Indução: João é pecador; Pedro é
pecador, logo, é possível que todos os homens sejam pecadores.
4.2.1. Método
indutivo segundo Galileu
Segundo
Galileu, a lei não exprime a totalidade, entretanto, expressa uma parte dos
fenômenos; assim, é possível a aplicação da conclusão de um ou mais fatos
particulares para todos os fatos semelhantes.
1)
Observação: Coleta de dados sobre o fenômeno;
2)
Análise: Relação quantitativa entre os elementos do fenômeno;
3)
Hipótese: Uma pressuposição do conhecimento sobre o fenômeno;
4)
Teste experimental: Comprovação do conhecimento;
5)
Modelo: Representação do conhecimento;
6)
Generalização: Formulação de lei científica com base nos resultados.
4.2.2. Método
indutivo segundo Bacon
O
método indutivo proposto por Bacon baseia-se na observação sistemática e na
experiência dos fenômenos e fatos naturais, de modo que cabe à experiência
confirmar a verdade. Esse método tenta impedir a formulação de
generalizações que extrapolem os limites de validade dos resultados
alcançados em determinado experimento.
1)
Experimentação: Coleta de dados sobre o fenômeno de forma experimental;
2)
Formulação de hipóteses: Fundamentadas na análise dos resultados obtidos dos
experimentos, buscando explicar a relação causal dos fatos entre si;
3)
Repetição da experimentação: Por outros cientistas em outros lugares, com a
finalidade de acumular dados que possam servir para a formulação de hipóteses;
4)
Repetição do experimento: Para teste das hipóteses, procurando obter novos
dados e novas evidências que as confirmem;
5)
Generalização: Formulação das leis, pelas evidências obtidas, generalizando as
explicações para todos os fenômenos da mesma espécie.
4.2.3. Método
indutivo no estudo da Bíblia
Mesmo
nos argumentos dedutivos existe um aspecto indutivo, pois nem todas as idéias correspondem
com a realidade e nem todos os argumentos tidos como verdadeiros podem ser
provados.
Por
exemplo, como considerar a idéia da existência de Deus? Com base em um
argumento indutivo, pois uma visão ateísta, ainda que lógica, não pode explicar
essa idéia. A Teologia Reformada lista argumentos em prol da existência de
Deus, mas estes são baseados na Bíblia, ou seja, a base destes argumentos não é
aceita por todos os homens e não pode ser comprovada cientificamente. Exemplos
do pensamento indutivo na formulação de doutrinas e conceitos bíblicos:
A
Trindade
É
correto afirmar que a Bíblia não usa o termo “Trindade” para se referir à
divindade em nenhum único texto. Como chegar, com clareza, à doutrina da
Trindade?
·
Premissa 01: A Bíblia ensina a existência
de um único Deus
·
Premissa 02: A Bíblia ensina a
divindade do Deus Pai
·
Premissa 03: A Bíblia ensina a
divindade de Jesus
·
Premissa 04: A Bíblia ensina a
divindade do Espírito Santo
·
Premissa 05: A Bíblia ensina que o
Pai e o Filho são pessoas distintas
·
Premissa 06: A Bíblia ensina que o
Espírito santo é uma Pessoa distinta do Pai e do Filho, ao atribuir a Ele
características pessoais
·
Conclusão: O Pai é Deus, Jesus é Deus
e o Espírito Santo é Deus, contudo, não há três deuses, mas um único Deus que
subsiste eternamente em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Poderiam ser listadas diversas outras premissas para a formulação dessa
doutrina.
Deus
não se arrepende
·
Premissa 01: A Bíblia ensina que Deus
é eterno;
·
Premissa 02: A Bíblia ensina que Deus
sabe todas as coisas em todos os lugares;
·
Premissa 03: A Bíblia ensina que os
desígnios de Deus são eternos;
·
Premissa 04: A Bíblia ensina que Deus
não muda;
·
Conclusão: Deus não pode se
arrepender (a despeito de textos isolados das escrituras identificarem
arrependimento em Deus).
Embora
o estudante possa ter uma primeira impressão de que se trata de um argumento
dedutivo, o mesmo não ocorre. Não é possível – senão pela argumentação –
provar, de forma científica, a existência de Deus, a divindade ou a
pessoalidade do Espírito santo ou mesmo a inerrância da Bíblia, da qual
procedem as bases para a elaboração dessas premissas.
Essa
situação se repete em questões como a predestinação ou livre-arbítrio,
dicotomia ou tricotomia, contemporaneidade ou não dos dons espirituais, entre
outras questões que apenas podem ser temas de debates com base nos argumentos
indutivos dos envolvidos, não podendo ser provados cientificamente, ainda que
alguma das escolas teológicas possua mais textos bíblicos ou uma melhor argumentação
a favor de suas doutrinas.
É
comum que o iniciante em estudos bíblicos entenda a indução como acréscimo à
Bíblia, pois formula doutrinas com base em premissas e, tais doutrinas, nem
sempre são nomeadas na Bíblia. É o caso da Trindade, como supracitado, da
onisciência de Deus, pois é uma designação não-bíblica, do próprio termo
“teologia”, que soa em extremo estranho para alguns o “estudo de Deus”, dos
sacramentos, do costume de celebrá-los mensal ou anualmente, entre tantos
outros. É fato que não se deve acrescentar à Bíblia coisa alguma, portanto, o
estudante deve se resumir ao que ela diz. Porém, pesquisas baseadas em dedução,
indução, lógica ou princípios, não devem deixar de ser realizadas e ensinadas
por medo de lidar com as implicações resultantes.
5. MÉTODOS
DE ESTUDO BÍBLICO
5.1. MÉTODO
ANALÍTICO DE ESTUDO BÍBILICO
O
método analítico consiste em um exame cuidadoso do versículo ou da passagem
bíblica, estudando o objeto em seus pormenores, atentando para os menores aspectos,
analisando as partes que compõe o todo.
Para
que o estudante selecione versículos para análise e pesquisa, é importante que
tenha um programa de leitura bíblica constante e devocional.
5.1.1. Análise
de um versículo
1)
Deve ser escolhido um versículo que apresente uma idéia completa em si mesmo
ou, caso contrário, o texto escolhido deve ser delimitado em seu contexto;
2)
Observações ou aplicações devem ser anotadas, dificuldades devem ser
detalhadamente especificadas. Isso é feito através de perguntas para ao
versículo: Quem? O que? Onde? Quando? Por quê? Como?
3)
Verbos e substantivos devem ser anotados nessa parte;
4)
Reproduzir o versículo (ou versículos) com palavras próprias e expressar a
idéia central do autor facilitam a compreensão;
5)
Procurar textos paralelos ou idéias semelhantes pode ajudar a esclarecer
possíveis dificuldades;
6)
Extrair a idéia central do versículo. Geralmente, quando o texto convoca a uma
ação, a idéia central estará em seus verbos; quando é uma passagem de caráter
doutrinário, estará em seus substantivos;
7)
Após listar as possíveis aplicações para o texto, é necessário escolher,
em oração, uma delas, especificando um problema, um exemplo de problema e uma
solução prática extraída do texto.
5.1.2. Análise
de uma passagem mais extensa
1)
Leitura cuidadosa da passagem, anotando todas as observações – o que deverá ser
feito em cada passo do estudo. Isso é feito através de perguntas para a
passagem: Quem? O que? Onde? Quando? Por quê? Como?
2)
Verbos e substantivos devem ser anotados nessa parte;
3)
Elaboração de uma lista onde conste a idéia central de cada versículo,
4)
Encontrar o fluxo da argumentação do autor, relacionando os versículos entre
si;
5)
Ligação dos pensamentos-chave em uma única idéia central. Para tanto, é
necessário fazer a divisão do texto em parágrafos ou pensamentos, pois a
divisão em capítulos e versículos não é inspirada e nem sempre fornece uma
sistemática clara do pensamento do autor.
6)
Identificação das aplicações e escolha da mais relevante para o estudo em
questão, estabelecendo o problema, o exemplo do problema e a solução proposta
pelo texto.
5.2. MÉTODO
SINTÉTICO DE ESTUDO BÍBILICO
Em
contraste com o método analítico, o sintético busca uma compreensão holística
de cada livro da Bíblia, em sua unidade, não dedicando esforço hermenêutico aos
pormenores, mas à mensagem geral, considerando questões como o propósito do
escritor, o que este tinha em mente quando da escrita, o método e os caminhos
usados para atingir seus objetivos e outras questões tais.
Este
é o melhor método para a compreensão da mensagem central de cada livro da
Bíblia, que capacita o estudante a compreender melhor o autor de cada obra
inspirada e evita erros de interpretação.
1)
Leitura cuidadosa de todo o livro, anotando:
a)
As observações – pensamentos-chave e argumentos principais que ocorrem pelo
livro, além de acontecimentos, lugares e nomes. o que deverá ser feito em cada
passo do estudo.
b)
As dificuldades, sem generalizações; é importante especificar o que não foi
compreendido;
c)
Referências em outros livros ao assunto tratado pelo escritor;
d)
Possíveis aplicações para as passagens.
2)
Identificação do tema central do livro. Para isso, é necessário que:
a)
O estudante leia o livro quantas vezes forem necessárias;
b)
Não permita que a divisão em capítulos e versículos destrua a linha de
raciocínio presente na composição original;
c)
Desenvolva um esboço do livro, a partir de títulos ou frases-resumo para
cada parte;
d)
A partir deste esboço, resuma os vários títulos em um título principal que
manifeste o tema encontrado nas porções do livro;
3)
Uma visão geral do conteúdo do livro deve ser desenvolvida:
a)
O escritor do livro e o que este revela acerca daquele;
b)
Os destinatários originais do livro e os fatos que envolvem estes últimos;
c)
Local, época, circunstâncias e ambiente em que o livro foi escrito;
d)
Motivos da escrita, como um problema que levou à sua escrita (Gl 1.6) ou um
desejo de compartilhar conhecimento (Pv 1.1-4), etc.
4)
Verificação do estilo utilizado pelo autor na apresentação de seus argumentos.
5)
Verificação do papel e das contribuições que o livro estudado traz ao todo da Bíblia.
6)
Escolher uma aplicação dentre as que forem possíveis ao livro.
Para
enriquecimento da pesquisa bíblica, o estudante pode utilizar os dois métodos
acima estudados, embora sejam contrastantes, são complementares um ao outro.
5.3. MÉTODO
TEMÁTICO DE ESTUDO BÍBILICO
O
método tópico ou temático apresenta princípios técnicos para o estudo Bíblico
por temas, ou seja, é a investigação sobre um tema escolhido, em toda a Bíblia
ou em determinada parte dela. Este método de estudo não está diretamente ligado
ao texto (embora jamais seja desvinculado do mesmo), mas ao assunto de que
trata.
Feita
a escolha de um tema para análise, é importante pesquisá-lo por toda a Bíblia
ou em determinada parte dela, como por exemplo, o estudo da salvação segundo a
carta aos Romanos ou o estudo das profecias messiânicas segundo Isaías. Essa
delimitação pode ser feita devido à extensão do tema.
1)
Escolha do tema;
2)
Delimitação do material bíblico para estudo: será analisado um livro, uma das
divisões da Bíblia (Pentateuco, históricos, Poéticos, etc.) ou a Bíblia como um
todo;
3)
Escolha de um objetivo para o estudo do tema, para que o estudante possa ter um
norte a seguir durante o processo; escolher um assunto e começar a ler versículos
sobre ele sem um propósito final pode ajudar a adquirir conhecimento, mas não
levará a um estudo sistemático e lógico;
4)
Relacionar as referências concernentes ao tema no livro escolhido; isso deve
ser feito com o auxílio de uma concordância bíblica, referências cruzadas (a
maioria das bíblias trazem esse recurso em seu rodapé) ou programa de
computador;
5)
Anotação das observações que deverá ser realizada durante todo o estudo; nesse
ponto, devem ser anotadas:
a)
Dificuldades devidamente especificadas;
b)
Possíveis aplicações para o conteúdo;
c)
Definição do significado das palavras;
6)
Extrair o pensamento principal de cada referência;
7)
Elaboração de uma cadeia de categorias para os versículos anotados, mediante
semelhanças entre estes, com base no pensamento-chave de cada um;
8)
Formação de um esboço segundo as categorias encontradas para os versículos;
nesse ponto, é importante haver lógica, de preferência evolutiva;
9)
Extrair do esboço o pensamento-chave de cada categoria;
10)
Extrair um pensamento principal de todo o esquema traçado até este ponto;
11)
Por fim, é importante trabalhar as aplicações práticas nas quais a pesquisa
resultou.
5.4. MÉTODO
BIOGRÁFICO DE ESTUDO BÍBILICO
Para
desenvolver este método de estudo, o pesquisador pode se valer dos princípios
do método temático a fim de encontrar, listar e extrair o conteúdo dos trechos
ou versículos bíblicos a respeito da vida de determinado personagem.
O
método biográfico é um estudo a respeito da vida dos personagens bíblicos com o
propósito de extrair aplicações práticas para a vida da Igreja de Cristo, sejam
eles positivos – a serem imitados ou negativos – a serem evitados. O material
para esse tipo de estudo é farto, pois há cerca de dois mil e novecentos
personagens na Bíblia.
1)
A escolha do personagem a ser estudado; se a biografia deste for muito extensa
ou variada, é possível delimitar o tema a determinado período de sua vida, por
exemplo, a vida de Paulo pode ser estudada durante as viagens missionárias,
durante a estadia em determinada região ou cidade, durante os anos de prisão,
etc.
2)
Observações devem ser feitas e anotadas durante todo o estudo;
3)
Com o auxílio de uma concordância bíblica, referências cruzadas (a maioria das bíblias
trazem esse recurso em seu rodapé) ou programa de computador, o estudante deve
relacionar os principais acontecimentos da vida deste personagem;
4)
O pano fundo, o contexto histórico, as circunstâncias pessoais e culturais
devem ser levadas em conta;
5)
Em ordem cronológica, deve ser feito um resumo imparcial da vida do personagem,
listando acontecimentos importantes em parágrafos;
6)
O próximo passo é a intitulação de cada parágrafo, de modo a definir quem foi o
personagem e o que ele fez;
7)
É importante registrar as qualidades e as debilidades, acertos e erros
observados;
8)
Definição de um versículo-chave sobre a vida desta pessoa e, a partir deste,
uma frase central que defina um conceito negativo ou positivo a respeito do
mesmo;
9)
Observação dos valores, motivações e objetivos do personagem;
10)
Contraste com outras figuras bíblicas;
11)
Das aplicações possíveis, escolher a mais relevante para o objetivo do estudo.
Referências
BERKHOF,
Louis. Princípios de interpretação Bíblica. JUERP, Rio de
Janeiro
Bíblia
de Estudo de Genebra, Edição Ampliada.
FELTRIN,
Marcelo. Métodos de Estudo Bíblico. São Paulo, IBCU.
GADELHA,
Vítor. Métodos de Estudo Bíblico. São Paulo, Apostila
Teológica.
HENRICHSEN,
Walter. Métodos de Estudo Bíblico. São Paulo, ed. Mundo
Cristão, 1993.
LACHLER,
Karl. Prega a Palavra. Edições Nova vida
MARQUES,
Max Clayton. A Pregação e o Pregador. São Paulo, 2010.
Apostila Teológica
MARTIN,
Walter. Curso Interdenominacional de Teologia. Jundiaí, ICP,
2003
REIFLER, Hans Ulrich. A pregação ao alcance de todos. Edições Nova Vida.
Davi
Elias Domingos
Pastor,
Teólogo e Apologista
Reitor
do Instituto Bíblico de Ensino Teológico Vida.
www.ibetv2.webnode.com
Comentários
Postar um comentário